Foi uma noite dura de combate corajoso. Sobre a mesa de trabalho ainda estão: três telemóveis, desktop e laptop, o bloco de notas, a agenda electrónica, uma Montblanc e dois lápis (roídos até ao tutano). Está também o maço dos cigarros (ou o que resta dele) meio a atirar para o maricas, que agora dei em fumar para fingir que fumo de forma mais saudável…
Dentro do samovar, comprado aos anos na pior loja de Moscovo que conheci, o chá jaz morto e arrefeceu. No canto da mesa consigo ver que sobraram umas last fishing chips trazidas de Londres no mês passado. Resistiram surpreendentemente à dura noite de batalha. E daí… talvez tenha sido eu… Devo ter-me distraído com o pacote das tiras de milho…
Há quem tenha ideia que a vida de uma “working girl” é um fantástico “papo-pó-ar“. Ora Justamente porque ando em peregrinação aos anos, a tentar alterar ideias feitas (tão desajustadas da realidade do mundo como um sapato de criança está para um adulto), decidi-me por um tópico diferente dos habituais, que vou mesmo repartir em dois.
Quando se leva a sério, o trabalho de uma escort independente só encontra comparação com o desenvolvido pelos quadros superiores das multinacionais. Eu sei que pensam que estou a ser optimista, mas tentarei demonstrar-vos o contrário. Essa será a minha missão. Se for bem sucedida ganha o respeito pelo sector. Se não for bem sucedida continuarei a insistir até que a água mole em pedra dura…
Vejamos:
Despojos da noite: Memória descritiva.
Acto I - A Arte da Guerra.
“Por cada hora de prazer deverás lembrar-te do longo caminho que terás que ainda que percorrer antes da próxima“.
Elizabeth Butterfly
(sobre o combate e as técnicas de pegar em armas)
ooH30 - Seguindo ao milímetro o mapa de planeamento estratégico feito durante a semana, abri a lista de contactos para a madrugada e comecei a telefonar ordenadamente às colegas (e amigas) espalhadas por cantos diferentes do globo com horários aproximados. Objectivo: retomarem o link e adoptarem os novos banners. Resultado: cerca de meia centena de chamadas telefónicas de longa distância mais tarde, já estava metida em sarilhos! Os telefones ganhavam vida própria e tocavam desalmadamente como se não houvesse amanhã! Eram as devoluções de contacto das colegas que não tinham atendido.
Ao mesmo tempo, por mail, ia enviando missivas aos cerca de 40 directórios planeados para a madrugada. Como acontece com as colegas, os diferentes directórios obrigam a diferentes banners, com diferentes endereços de email. Tudo numa lógica de segmentação por zonas geográficas e, em muitos casos, por tipologias de target. Alguns directórios têm a função exclusiva de me gerar tráfego, mas não aceitarei os prospects que chegarem dali. O sistema acaba por complicar bastante a logística já de si pouco simples, mas constitui - ainda hoje - a primeira base dos meus métodos de filtro, e dos métodos de algumas colegas mais próximas de mim.
Estou a meio da madrugada. Os telefones fervilham. Colegas e webmistresses, um ou outro webmaster, vão chegando por mail e telefone. Lá fora toda a gente trabalha mais ou menos a horas estranhas. Tem a ver com a lógica global dos directórios, e os diferentes fusos horários em que vivem as escorts. Aturo o Alain… São duas da manhã e não me larga o telefone… Ainda não recuperou da rezinguice de ontem, quando viu o selo do ELP metido num site de espaço aberto. Como sabe que terá que sobreviver a isso (porque o selo vai continuar lá), suspira-me ao telefone enquanto aproveita para se queixar da vida… É um tipo fantástico, o Alain. Sempre mal disposto com a vida, mas uma completa ternura.
o4H10 - Enquanto vou falando e pedindo desculpa porque os telefones são dois e continuam a tocar, vou preenchendo formulários online e ajustando fotos. Porque cada um tem dimensões diferentes e fórmulas de inserção que não são nunca iguais… Desisto do Accompagnatrici e peço-lhes, mesmo fora de horas, que me resolvam um problema bicudo até porque tenho outros directórios italianos para rever. Além do mais já me devem mais uma colega: a Helena, que acaba de me dizer que o site está óptimo e já ligou o meu novo banner na página dela. Apesar de estar fora de Moscovo, em Praga, decidiu ser duplamente querida (thanks love).
o5H20 -Estou a funcionar em diferentes fusos horários e já mal vejo o telado. O que me vale é ter o “modo de piloto automático” e deixar os dedos correrem por si… Na indústria, o inglês é a lingua normalmente falada por todas as profissionais, mas acaba sempre por misturar-se com mais uma ou outra. Com a Mónica as coisas são geniais: inglês+espanhol+francês-inglês… Habituamo-nos àquilo e quase parecemos saídas de Neptuno… Só a lingua de Camões não se mistura com nada, merde…
o5H40 - Vou para a cama. Decididamente estou exausta. A Milena Cavalli acabou de fazer voltar a entrar o meu banner como acabei de lhe pedir. Fantástico! Assim sempre vou mais descansada para a cama. Durmo sempre muito pouco e daqui a pedaço vou ter que me levantar.
o9H30 - Upa! O mail está a abarrotar e os telefones indicam excesso de sms. Contudo… como sou “apenas uma escort e vivo uma vida de papo-pó-ar” decido ir namorar ao telefone com um cliente de longa data…
… É bom sermos tão, tão levianas… É que não sobre a mais pequena ponta de dúvida…
(Continua no próximo capítulo)
2 responses so far ↓
Nuno // May 9, 2008 at 2:23 pm
Confesso que fiquei cansado.
J // May 9, 2008 at 4:23 pm
Dormir pooucco não faz bem…
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